quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Olhar as subculturas


A sociedade contemporânea é caracterizada por uma pluralidade de manifestações culturais. O conceito de subculturas aborda as diferentes manifestações culturais presentes na sociedade, de forma associada à valorização e coexistência de singularidades culturais que devem ser apreendidas em sua diversidade.

O conceito de subcultura designa o conjunto de padrões de comportamentos, crenças e interesses próprios de um determinado grupo social.

As noções de cultura, subcultura, devem ser compreendidas na sua pluralidade semântica. A história destes conceitos traduz parte do debate da história das ideias.

A cultura deve ser compreendida no plural, como resultado de diferentes manifestações humanas. O debate entre as concepções universalistas e particularistas da cultura pode ser revisto no conceito de subcultura.

O conceito de “subcultura” tem as suas raízes históricas na sociologia norte-americana dos anos 1930, em particular nos estudos da Escola de Chicago — como os de William Thomas sobre o “Camponês Polaco na Europa e na América” e os de Robert Park sobre os estrangeiros e o pertencimento entre diferentes culturas e a criação do “homem marginal” (Cuche, 2003, p. 81). Os estudos sobre comunidades proliferam numa abordagem etnográfica dos fenómenos urbanos. A aproximação entre a antropologia e a sociologia é notável em muitos destes estudos.

Diante da pluralidade de influências culturais presentes na sociedade americana, surge o conceito de subcultura como forma de singularizar as manifestações culturais de um determinado grupo social. No entanto, é importante valorizar e aprofundar o estudo da diversidade cultural presente nas sociedades contemporâneas como forma de manifestação do multiculturalismo em que todas as formas de manifestação
cultural devem ser consideradas como formas culturais plenas de significado e de valor cultural.

A sociologia americana foi fortemente influenciada pela antropologia cultural. A “Escola de Chicago” interessou-se pela dimensão cultural das relações sociais, particularmente no que tange as relações interétnicas (Cuche, 2003).

As manifestações culturais contestatárias estão presentes principalmente nos centros urbanos e nos grupos juvenis. Nos Estados Unidos, a cultura juvenil nos anos 1950-1960 desenvolveu-se como crítica à educação formal e aos padrões culturais pré-estabelecidos. No entanto, foi absorvida pela indústria cultural, internacionalizando-se (Filho, 2004). O movimento hippie opunha-se ao consumismo, à Guerra do Vietnam e aos estilos de vida predominantes na época. De forma semelhante, desenvolveu-se o movimento beat, o movimento punk, entre outros.

A cultura como conjunto coerente de normas, crenças e valores que configuram o modo de vida de uma sociedade deve ser pensada de maneira plural.

A identidade cultural estaria nos valores que são partilhados e aprendidos por determinados grupos sociais. Mas num mundo globalizado, o pertencimento multi-territorial e a diversidade de manifestações culturais e o multi-pertencimento identitário devem ser pensados de maneira mais aprofundada.

O conceito de subcultura teve suas origens nos Estados Unidos da América, no período posterior à Segunda Guerra Mundial. O baby boom que caracterizou este momento histórico teve repercussões no desenvolvimento de uma cultura juvenil — cultura
desenvolvida por jovens e para jovens.

O conceito de subcultura consolidou-se durante as décadas de 1970 e 1980. A obra de Dick Hebdige “Subculture, the meaning of style” (1979) destaca a importância dos símbolos criados nos bens de consumo juvenis. De forma complementar, o conceito
de “cena” enfatiza a importância da localidade na compreensão das práticas juvenis como a música.

As manifestações culturais associadas a uma nova condição juvenil são assim associadas ao conceito de subcultura. Na sociologia, este termo tem sido utilizado nos estudos de juventude e de desvio. A criminologia analisou a questão da delinquência e da formação de gangues a partir do conceito de subculturas.

O conceito de “subcultura” permite apreender a diversidade das manifestações culturais numa determinada sociedade. Uma cultura pode ser compreendida como um conjunto de subculturas. No entanto, o prefixo “sub” não deve ser apreendido de
forma hierárquica ou valorativa, mas sim como sinal de coexistência de diferentes formas de manifestação cultural numa

mesma cultura. Diferentes factores podem ser agregadores de uma subcultura como idade, etnia, classe ou género. Neste sentido, o termo multiculturalismo é mais adequado para descrever a pluralidade de manifestações culturais presentes na
sociedade contemporânea pois permite apreender a coexistência de diferentes manifestações culturais sem estabelecer nenhuma relação valorativa, hierárquica ou legitimadora de algumas manifestações culturais frente a outras.

O multiculturalismo designa as diferenças culturais presentes num contexto transnacional e global (Santos, 2002). A cultura global seria uma cultura dinâmica, resultado dos fluxos globais (Giddens, 2000). O Centro de Estudos Culturais
Contemporâneos da Universidade de Birmigham desenvolveu muitos estudos na área do multiculturalismo.

Babha (2001) emprega o conceito de “entre lugares” como locais de articulação das diferenças culturais de grupos minoritários.

A noção de subculturas permite apreender a heterogeneidade e a coexistência de manifestações culturais distintas no âmbito de parâmetros mais universalistas de práticas culturais.

A sociologia do desvio analisou formas divergentes de comportamento social. A capacidade de questionamento da sociedade assume limites e potencialidades. Os projectos sociais são heterogéneos e variam segundo o estatuto, o trajecto social, o género e a geração dos actores sociais.

Maffesoli (1987) destaca o processo de neotribalização da sociedade. A busca de pertencimento estaria associada aos processos de individualização e de formação de microgrupos.

O conceito de “tribos urbanas” permite analisar a formação de grupos sociais com referências identitárias e sentimentos de pertença comuns.

As tribos urbanas são heterogéneas, dinâmicas, estão em constante transformação (Costa, 1996; Maffesoli, 1999).

Os “códigos de reconhecimento” possibilitam o trânsito entre referenciais culturais distintos de comportamento. Os jovens criam com frequência grupos específicos de sociabilidade. Do hip hop, as tribos urbanas, aos movimentos punks, ao manguebit
(por vezes também gravado “mangue beat”), aos hippies, aos carecas do subúrbio, os rudie boys, clubers, sambistas, roqueiros, rastafaris, break, grafite, dj, street ball as manifestações culturais juvenis assumem uma pluralidade de formas de
manifestações.

Multiculturas no Brasil

No Brasil, surgem durante os anos 1970 movimentos sociais que questionam a ordem estabelecida, — como o movimento hippie, movimentos feministas, movimentos ecológicos e os movimentos negros — que buscam um espaço político e cultural
que lhes seja próprio. As noções de pluri-culturalismo e pluri-etnicidade assumem um papel importante nestes movimentos.

A sociedade brasileira é caracterizada por uma forte heterogeneidade e diversidade cultural. A imagem da “Torre de Babel” exprime a diversidade étnico-cultural brasileira (Santos; Gosselin; Ossebi, 1994). Assiste-se a manifestações culturais diversas que vão do carnaval, às influências afro-brasileiras, às comunidades quilombolas, as festas e manifestações culturais imigrantes.

A cultura brasileira foi fortemente influenciada pelas culturas indígenas, africanas e europeias em geral — particularmente portuguesa.

Há diversidade de actores e de papéis sociais no mundo globalizado. Há identidades linguísticas e culturais comuns entre Portugal e Brasil.

As dimensões culturais de uma sociedade podem ser expressas nos aspectos materiais e imateriais de uma cultura. Desde manifestações artísticas como o grafitti, aos estilos musicais, às marcas corporais como as tatuagens, piercings, aos próprios
modos de vida e estruturação arquitectónica das cidades, a cultura perpassa todas as dimensões da existência humana.

Elementos identitários, contestatários, homogeneizadores, diferenciadores, criativos, patrimonialistas, de ruptura, efémeros, de continuidade, particularistas, universalistas. A coexistência e pluralidade de manifestações culturais numa sociedade pode ser apreendida no conceito de “subculturas”, ou melhor, de multi-culturas.

A sociedade contemporânea assiste a pluralidade de manifestações culturais. As “subculturas” podem ser apreendidas como formação de novas tribos (Bennet, 1999).

No contexto brasileiro, Costa (2004) analisou os jovens da comunidade Zadoque em
São Paulo através do movimento “Carecas de Cristo”, formado por skinheads com vocação religiosa. Lindolfo (2004) estudou o hip hop e o processo de marginalização dos jovens. As sonoridades juvenis negras (Contador, 2004), o funk carioca (Viana,
1988), o movimento punk na cidade do Rio de Janeiro (Caiafa, 1989) são exemplares da heterogeneidade das manifestações culturais presentes na sociedade brasileira.

As práticas culturais podem ser associadas aos estilos de vida e a própria relação com o espaço. Assiste-se a casos de afirmações identitárias territorializadas, corporais. O corpo pode ser considerado como manifestação cultural de identidades.

A marcação do corporal através de tatuagens e piercings pode ser considerado uma forma de manifestação cultural.

A religião pode igualmente ser relacionada com as práticas culturais. No caso brasileiro, as igrejas evangélicas assumem práticas multimedia. Assiste-se à formação de grupos como os atletas de Cristo, os surfistas de Cristo, os roqueiros de Cristo.

Novos fenómenos culturais são presentes na sociedade contemporânea. Elementos artísticos, estéticos e identitários assumem influência e dimensão cultural. O mangueBitt é um movimento artístico e musical que surgiu em Recife nos inícios dos anos 1990. Desenvolveu-se como um espaço de pertença e de identificação que evoca as tribos urbanas (Araújo, 2004). O mangueBit valoriza a diversidade de culturas e de estilos de vida.

Muticulturas em Portugal

Em Portugal, influências árabes, célticas, religiosas, do fado, dos PALOPS, do rap negro, da música e da culinária cabo-verdiana, das festas dos santos e das marchas populares são alguns exemplos de manifestações culturais presentes nesta sociedade.

O processo de globalização possibilita a transnacionalização de manifestações culturais que perpassam diferentes sociedades. A relação entre global e local assume particularidades segundo a sociedade em que se encontra. No entanto, assiste-se a
dificuldades de definição do termo “subcultura” neste caso. A relação entre “cultura standard” e “subculturas” nem sempre é clara. Há limites e fronteiras conceituais. O caso da cultura dos imigrantes na sociedade de acolhimento é exemplar das ambiguidades inerentes ao pertencimento inter-étnico e multicultural.

No contexto português, José Machado Pais analisou bandas musicais e observou a presença de “identidades dissidentes”. Com frequência, os nomes contestatários das bandas revelam instrumentos identitários carregados de valor simbólico. As bandas
musicais juvenis assumem papel contestatário.

A influência dos imigrantes na formação da sociedade brasileira e a influência dos imigrantes na sociedade portuguesa actual são exemplares das presenças multiculturais nestas sociedades.

Considerações Finais

Em defesa de uma visão heterogénea e plural da cultura que permita apreender a complexidade das culturas e a importância da valorização dos meandros e subtilezas de outras culturas. Assiste-se a uma pluralidade de manifestações culturais, de
formas de culturas diversas, como as culturas de resistência, manifestações artísticas inéditas, culturas emergentes, culturas de protesto e culturas de inovação.

Boaventura de Sousa Santos destaca os limites das visões culturais egocêntricas e defende a importância do conhecimento cultural mútuo. Propõe a “hermenêutica diatrópica”.

Culturas como práticas e representações simbólicas construídas por determinadas colectividades humanas.

A questão da diversidade cultural e do espaço para o novo e para as transformações sociais deve ser pensado numa abordagem integrada e plural das culturas presentes no mundo globalizado — com especial destaque para os intercâmbios entre Portugal
e Brasil neste caso.

Os intercâmbios, trocas, trânsitos culturais entre Brasil e Portugal devem ser pensados de maneira actualizada.

Sapir foi dos pioneiros na concepção da cultura como um sistema comunicacional inter-individual. Considera-se fulcral o desenvolvimento de intercâmbios culturais luso-brasileiros na contemporaneidade de forma a valorizar e permitir um maior contacto entre um património cultural comum com influências culturais diversas. A fotografia assume um papel de destaque nestes intercâmbios. A questão das permanências e das descontinuidades no âmbito cultural deve ser pensada neste caso específico.

Por Christiane Coêlho, CIES-ISCTE, Lisboa, Portugal

Atualmente existem inúmeras comunidades de fotografia online que incentivam a um aumento de inspiração e criatividade, bem como o melhoramento da técnica fotográfica. Com mais de 142 mil usuários, a comunidade Olhares.com é considerada a plataforma de língua portuguesa com maior número de fotógrafos cadastrados e com uma galeria de mais de 1.6 milhões de fotografias.

Assim, a Fnac Portugal e a Fnac Brasil associam-se ao Olhares para lançar um desafio aos seus membros: o de olhar e refletir, através da fotografia, sobre o conceito de subcultura.

De 11 de Fevereiro a 1 de Março a Fnac e o Olhares convidam-no a participar nesta iniciativa. Cada participante pode apresentar 2 a 6 fotografias.

A partir de 26 de Março, todos os trabalhos selecionados serão apresentados sob o nome “Olhar as subculturas”, nas Galerias Fnac em simultâneo em Portugal e no Brasil.

Informações da iniciativa em http://olhares.com/exposicao/subculturas

As Imagens participantes são peças selecionadas do acervo fotográfico jcnavegador
Fotografia: Julio Cesar de Almeida





Link para acervos fotográficos de outros mestres:
http://www.4shared.com/document/4uU1hYxB/Arte_de_pintar_com_luz.html
http://www.4shared.com/document/B4xAB8qa/As_cores_da_vida.html
http://www.4shared.com/document/6b5jO0Sd/Imagem_Insolita.html
http://www.4shared.com/document/ddz_Hm6b/Imagens_Publicitrias.html
http://www.4shared.com/document/yhC3rn4n/Paisagem_2007.html
http://www.4shared.com/document/zCwz1VW2/Paisagens.html

Criatividade animal no Fotoshop






















terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Albrecht Dürer - Pintor alemão


No século XV, em uma pequena aldeia perto de Nüremberg, vivia uma família com vários filhos. Para pôr pão na mesa para todos, o pai trabalhava cerca de 18 horas diárias nas minas de carvão, e em qualquer outra coisa que se apresentasse.

Dois de seus filhos tinham um sonho: queriam dedicar-se à pintura, mas sabiam que seu pai jamais poderia enviar os dois para estudar na Academia.

Depois de muitas noites de conversas e troca de idéias, os dois irmãos chegaram a um acordo : lançariam uma moeda para tirar a sorte, e o perdedor trabalharia nas minas para pagar os estudos ao que ganhasse. Ao terminar seus estudos, o ganhador pagaria então, com a venda de suas obras, os estudos ao que ficara em casa.

Assim, os dois irmãos poderiam ser artistas. Lançaram a moeda num domingo ao sair da Igreja. Um deles, chamado Albrecht , ganhou, e foi estudar pintura em Nüremberg.

Então o outro irmão, Albert, começou o perigoso trabalho nas minas, onde permaneceu pelos próximos quatro anos para pagar os estudos de seu irmão, que desde o primeiro momento tornou-se, logo, um sucesso na Academia.

As gravuras de Albrecht, seus entalhes e seus óleos chegaram a ser muito melhores que os de muitos de seus professores. Quando se formou, já havia começado a ganhar consideráveis somas com as vendas de sua arte.

Quando o jovem artista regressou à sua aldeia, a família Dürer se reuniu para uma ceia festiva em sua homenagem.

Ao finalizar a memorável festa, Albrecht se pôs de pé em seu lugar de honra à mesa, e propôs um brinde à seu irmão querido, que tanto havia se sacrificado, trabalhando nas minas para que o seu sonho de estudar se tornasse uma realidade. E disse:

"Agora, meu irmão, chegou a tua vez. Agora podes ir a Nüremberg e perseguir teus sonhos, que eu me encarregarei de todos os teus gastos".

Todos os olhos se voltaram, cheios de expectativa, para o lugar da mesa que ocupava seu irmão. Mas este, com o rosto molhado de lágrimas, se pôs de pé e disse suavemente:

"Não, irmão, não posso ir a Nüremberg. É muito tarde para mim. Estes quatro anos de trabalho nas minas destruíram minhas mãos. Cada osso de meus dedos se quebrou pelo menos uma vez, e a artrite em minha mão direita tem avançado tanto que me custou trabalho levantar o copo para o teu brinde.

Não poderia trabalhar com delicadas linhas, com o compasso ou com o pergaminho, e não poderia manejar a pena nem o pincel. Não, irmão, para mim já é tarde. Mas estou feliz que minhas mãos disformes tenham servido para que as tuas agora tenham cumprido seu sonho".

Mais de 450 anos se passaram desde esse dia. Hoje as gravuras, óleos, aquarelas, entalhes e demais obras de Albrecht Dürer podem ser vistos em museus ao redor de todo o mundo.

Para render homenagem ao sacrifício de seu irmão, Albrecht Dürer desenhou suas mãos maltratadas, com as palmas unidas e os dedos apontando ao céu.

Chamou a esta poderosa obra simplemente "Mãos", mas o mundo inteiro abriu de imediato seu coração à sua obra de arte e mudou o nome da obra para : "Mãos que oram".

Na próxima vez em que vir uma cópia desta obra, olhe-a bem. E que ela sirva para que, quando você se sentir demasiado orgulhoso do que faz, e muito seguro de si mesmo, lembre-se que, na vida, ...ninguém triunfa sozinho!

“E, como a geometria é a base de todas as pinturas, eu decidi ensinar seus rudimentos e princípios aos mais novos, ansiosos pela arte.”

(Course in the Art of Measurement)
ALBRECHT DÜRER

21 May 1471, in Imperial Free City of Nürnberg (now in Germany)
6 April 1528, in Imperial Free City of Nürnberg (now in Germany)

O Canto encantado

Aguardando o solstício de 21dez12